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Dª MARQUITAS: A VELHINHA DA CASA DE PEDRA

Crónica: Pegadas da Vida: D. MARQUITAS: A velhinha da casa de pedra. 

 

 

D. Marquitas foi professora do ensino médio e agora aposentada, todos os dias permanecia sentada no seu cadeirão no alpendre da varanda da sua casa de paredes de Pedro centenário.

 

Todos na aldeia estavam habituados a cumprimentar a D. MARQUITAS e ela sempre lhes respondia com um sorriso no rosto, camuflando na maioria dos dias as suas angústias, saudades e mesmo tristeza e solidão.

 

Mas todos sabiam e reconheciam que era uma senhora muito culta e na sua idade mantinha sempre o hábito de ler, e manter a par das notícias.

 

Todos na aldeia sabiam onde recorrer por um conselho assertivo e legal, para tirar uma dúvida e até os jovens lhe pediam esclarecimento para se prepararem para provas... E ela acedia a tudo e a todos com uma alegria e bondade extrema e uma boa disposição no diálogo com o próximo.

 

Desde que o marido morreu, ela passava os dias entre uma ida matutina à padaria, com passagem pela mercearia do Sr. Alcides para comprar alguma coisa que lhe faltava, ler os jornais e beber o seu cafezinho, dando dois dedos de prosa com o Sr. Alcides e por vezes mais algum cliente que por ali parava e voltava para casa. O seu passatempo diário era Ler, costurar algumas peças de roupa, fazer renda e criar "TALEGOS" (sacos) em tecido de retalhos, que vendia através da mercearia do Sr. Alcides, que os recebia por serem fruto do seu trabalho pessoal, pelo carinho que lhe tinha, e pelo trabalho bem feito e de designer com cunho e estética pessoal, fazia-lhe publicidade e para maior visibilidade colocava-os em exposição. Tinham muita saída para oferendas e para turistas e imigrantes que por ali paravam.

 

D. MARQUITAS era uma velhinha tranquila e doce, mas carregava com ela uma tristeza profunda e o peso de uma vida com desfecho inesperado e talvez interrompido cedo demais... Consequência de um infortúnio inexplicável.

 

Das desgraças resultou o abandono dos dois filhos ainda jovens com o pai ainda vivo e posteriormente a morte do seu marido, seu companheiro de vida, num casamento de 60 anos.

 

Contam que é uma velhinha que sofre com certeza de uma tristeza profunda e sentirá um vazio completo naquele casarão enorme de paredes largas em pedra tipo castelo dos tempos passados.

 

Na aldeia todos estão habituados à sua presença diária e silenciosa, mas que significa sabedoria, maturidade, educação, bondade, legado... PRESENÇA.

 

Mas há pouco tempo as pessoas passaram e nada da Marquitas, começaram a questionar, foram à mercearia no intuito de conseguir respostas, mas nada!

No dia seguinte, nem presença, nem resposta dela ao chamarem e ao baterem na porta.

Começou a temer-se o pior e por isso chamaram Bombeiros e Polícia. Ao entrarem encontraram D. Marquitas vestida em cima da sua cama, agarrada à foto do marido e com um terço nas mãos já sem vida.

 

A seu lado estava uma carta dirigida ao Sr. Alcides e filhos, onde lhe deixava contacto do seu advogado para que lhe fossem entregues os seus bens. Não por ser família, mas por terem sido os únicos que se importaram com ela, que lhe vendiam os TALEGOS, que a convidavam por vezes para almoçar ou jantar, mas principalmente por lhe fazerem sentir que ela era parte integrante da sua família, a família que a acolheu, quando ela já tinha perdido quase tudo. A família, que lhe servia o café da manhã e nunca lhe quis cobrar um cêntimo.

 

Relatava também em tom de gratidão "Obrigada por terem estado disponíveis para mim e me terem permitido ser por alguns momentos membro presente da vossa família e a irmã e avó de coração dos vossos filhos".

 

Obrigada, Alcides e esposa. Obrigada, queridos netos.

É um obrigada a todos aqueles que faziam questão de me cumprimentar diariamente e perguntar como eu me sentia.

 

Para onde for, vos levarei no coração e se Deus me conceder um lugar na sua casa, vou interceder por vós que de alguma forma me amaram.

 

 Autor: Lya Santos

 

 

 

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