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LYA SANTOS - OFICIAL 
Escritora, Autora, Compositora, Artista, Pintora, Artesã & Terapeuta : Psicologia Positiva

Grupo Lyasantos Autora Ofi

Público·2 membros

CRÓNICA "PEGADAS DA VIDA" - (BASEADO EM HISTÓRIAS REAIS)

PEGADAS DA VIDA (19/05/2026) -

Caminhei ontem pela praia ao fim da tarde, quando o sol já se rendia ao mar e pintava o céu de laranja queimado. A areia ainda guardava o calor do dia, mas os meus pés deixavam marcas fundas, quase feridas, como se o peso do tempo tivesse decidido acompanhar-me naquela caminhada.

Olhei para trás. As pegadas eram irregulares: umas firmes e direitas, de quem sabe para onde vai; outras tortas, hesitantes, como se tivessem tropeçado em dúvidas ou medos. Havia sítios onde as ondas já as tinham apagado, deixando apenas uma sombra húmida na areia. Em outros, o vento soprava leve e começava a cobri-las de grãos novos. Em breve, nada restaria.

Pensei então em quantas pegadas deixamos pela vida sem nos darmos conta. As primeiras, pequenas e incertas, no chão da casa dos pais. As pegadas rápidas e saltitantes da infância, correndo atrás de uma bola ou de um sonho que parecia ao alcance da mão. As pegadas pesadas da adolescência, arrastando revolta e perguntas sem resposta. Depois vêm as pegadas adultas: ritmadas pelo relógio do trabalho, pela urgência dos filhos, pelas contas, pelas noites mal dormidas, pelas alegrias que passam depressa demais.

E há as pegadas que não vemos, mas que ficam marcadas noutras pessoas. A pegada da mão que apertámos com força num dia mau. A pegada da palavra dita na hora certa, ou da palavra que calámos quando devíamos ter falado. A pegada invisível do riso partilhado, do silêncio compreendido, do ombro oferecido.

Às vezes, quando a vida aperta, olhamos para trás e vemos apenas um par de pegadas. É fácil pensar que estamos sós. Mas talvez seja nesses momentos que outra pessoa — ou a Vida, ou Deus, ou o destino, como queiram chamar-lhe — nos carrega ao colo. Não porque sejamos fracos, mas porque é assim que se ama: carregando o outro quando as suas forças acabam.

Hoje, ao acordar, decidi caminhar de novo. Não para apagar as pegadas antigas, mas para deixar novas. Menos perfeitas, talvez. Mais leves. Com mais desvios, porque os desvios também fazem parte do caminho. Com pausas para olhar o mar, para sentir o vento, para sorrir sem motivo.

Porque a vida não é linha reta. É um rasto na areia: bonito, efémero, único.

Amanhã a maré sobe e leva tudo. Mas enquanto a areia estiver seca e os nossos pés conseguirem andar, vale a pena continuar a marcar o chão — com cuidado, com ternura, com a consciência de que cada pegada conta uma história.

E quem sabe?

Alguém, um dia, olhe para trás e encontre as nossas marcas.

E sorria.

E sinta que não esteve sozinho.

Caminhemos, então.

Deixemos pegadas dignas de serem lembradas.

crónica - PEGADAS DA VIDA

Autora: Lya Santos (IGAC -Reg.nº 37/2026)

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